quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Pneumotórax

Tenório mata formigas desde os cinco anos. Agora com trinta e três, Tenório se profissionalizou. Ele não tem amigos, ele não tem mulher, Tenório é um homem fraco e com problemas pulmonares. Tenório fuma, sendo assim, presume-se que ele tenha uma constante vida interior. Ele pensa no passado em busca de expectativa para o futuro. Tenório acha a vida inútil. Tenório mora sozinho e dorme na cama onde sua mãe dormiu o último sono.
Esse corpo franzino passeia pelos parques de Porto Alegre em busca de formigueiros, vespeiros e qualquer outro ninho de praga. Ele um dia mirou seu canhão de inseticida para ele mesmo, sem pensar em suicídio, pensava apenas em resumir a queda que é a vida. Tossindo demais, não conseguiu mirar seu rosto. O veneno não alcançou suas mucosas e ele não teve êxito na tentativa.
Tenório herdou da mãe uma coleção de discos de Mercedes Sosa e ele canta todo dia "Gracias a La Vida" com ironia, toma banho com sabão e vai dormir. Sua casa fede a veneno.
No apartamento ao lado mora uma moça chamada Verônica. Ele sempre ouve Verônica reclamar das baratas quando fala ao telefone com uma amiga, sempre a mesma amiga. Um dia ele oferece seus serviços a ela, promete exterminar qualquer inseto daquele apartamento. Ela aceitaria e ele faria sexo pela primeira vez. Mas ela não aceita, pois tem medo dos olhos estrábicos de Tenório e de sua cicatriz por conta de uma traqueostomia. Ele nota a distância que ela toma para responder e mentir sobre a existência das baratas. Ela nega o fato de existirem esses insetos no seu apartamento e, assustada com a presença inesperada do estranho vizinho, fecha a porta.
Tenório ouve Verônica cantar no chuveiro todos os dias. O som sai da janela do banheiro dela e entra pela janela do quarto dele.
Um dia o canto alto de Verônica deu lugar a um choro baixo, típico de um ataque de pânico. Tenório pode ouvir, pois escutava com atenção a cantoria da vizinha enquanto tentava esquecer sua tentativa frustrada de prestar serviço a ela, então logo imaginou ser uma invasão daqueles insetos que Verônica tanto reclamava ao telefone.
Tenório viu ali a chance de mostrar sua capacidade de executar um bom serviço.
Ele teve uma ideia e não hesitou por em prática. Tenório dependurou-se no parapeito da janela do seu quarto e colocou a mangueira do canhão de inseticida – assim ele chamava o artefato – na janela do banheiro da moça que continuava a chorar e disparou um litro de inseticida para dentro.
Tenório suspirou ao ver o trabalho completo e bem feito e ouvir o silêncio pleno tomar conta do banheiro vizinho, com exceção de Oh! You Pretty Things, que continuou tocando no rádio da vizinha. Tenório acabava com mais uma praga na sua vida.

3 comentários:

Felipe disse...

Sem palavras. Fantástico, Rubem.

Você tem a manha pra se enfiar dentro desses tipos "Tenório" e tecer um belo texto. Isso é demais cara, demais.

E o livro?

Abração!

torradastostadas disse...

adoro a maneira que você distribui o texto. muito bom, rubem :)

Luara Q. disse...

Olá, tudo bem?
Por favor, TODOS OS TEXTOS DESSE BLOG SÃO MEUS http://danilocechinatto.blogspot.com/
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PLAGIO É CRIME, E VC COMO ESCRITOR DEVE ME ENTENDER!!
OBG, LUARA!