domingo, 3 de janeiro de 2010

Introspectivo

Olhar pela sacada nunca foi tão prazeroso. Embora sozinho e vendo as luzes da cidade se apagar aos poucos - e ao longo da madrugada-, sentia-se tranquilo ao ver mais uma noite sem sono chegar ao fim. Buscava refletir, embora sua mente permanecesse vazia de qualquer coisa ou sonho, era introspectivo. Era uma boa tentativa pra jogar fora todo seu desejo. Todo seu ego voaria pela janela junto com toda sua falta do que ser. A lua, amarelada, iluminando aquela noite de verão, por volta do dia 2 março, lhe dava inspiração ao recomeço. Não lembrava, ele, se há meses atrás havia errado em algo e esse passo torto que teria lhe arremessado na velocidade do tempo até aquela ponta da sacada onde permanecia debruçado na consciência. Despreocupava-se aos poucos com o próximo passo a dar. Engolia seco; engolia, sem perceber, qualquer motivação. A expectativa sempre fora grande irmã da decepção.

Era o passo a frente que ele nunca quis dar. Estava convicto e isso lhe tirava falsas esperanças, coisa que até então fora seu combustível para se iludir e acreditar nas coisas da vida, achar que a parte boa chegará - e sempre está para chegar – Assim como ele aprendeu e vivenciou.

Tinha apenas a certeza de que a vida não é um texto/rascunho onde só é preciso jogar as idéias no papel e depois consertá-las. Mas encontrou o impulso necessário para sair dali com a mente limpa e pronta para jantar, - e terminar os trabalhos do trabalho que resolveu levar para casa naquela segunda-feira - o impulso vinha do pé de apoio que, ele, naquele momento notou ser necessário pôr sempre que diante de uma longa decisão. Era uma espécie de pé atrás com o tempo, o relógio, o calendário. Era pensar antes de agir, sem pensar demais, era fazer sem medo de ter que voltar atrás ou acostumar-se com o erro. Então foi até a cozinha, parou diante da janta e escolheu entre carne e massa.

domingo, 18 de outubro de 2009

Rotina

Era tarde. Havia uma festa. Mas ele disse não. Decidiu não sair de casa. Preferia ler. Ouviu as noticias do radio. Desligou. Um trem passava longe. A vida também. Abriu a bebida forte. Era rum, uísque, não sabia mais. Leu um capitulo. Abandou a leitura e foi se deitar. Eram quase três horas da madrugada. Ele acordara, porem seu corpo não estava ao seu lado. Procurou. Encontrava-se espiando o mundo pela janela do banheiro. Uma vista urbana, cinza e noturna, inclusive ao meio dia, onde sua janela era cercada por diversas outras janelas, por cima, por baixo, pelos lados e também pela frente. Era inútil pensar em saídas tendo como vista a vizinhança inteira do Palace XI.
A folga no dia seguinte nem lhe animou. À folga, restara o tédio. Sempre. Foi dormir.
No dia seguinte, tomando seu café da manhã –café, pão e manteiga- seu pensamento ia longe enquanto observava as formigas saqueando seu açúcar. Era por volta das oito da manhã. O telefone tocava, insistentemente. Poderia ser Clara, com todo seu perdão já manjado, poderia ser o sindico ou o porteiro. Era seu chefe. Ficou ali deitado observando como a rotina o dominara. Não vivia mais. Não vivia com seu espírito. Seu corpo tomava conta dos compromissos, enquanto ele perambulava por algum lugar, tentando se encontrar. Voltou para casa. Trabalhara excepcionalmente bem. Recebera elogios. O corpo cansado despencava no sofá, enquanto ele acordava e ia caminhar pela casa durante a noite, observar as outras janelas pela janela do banheiro. Sentiu-se útil. Resolveu dormir, pois haveria trabalho para ele, de corpo e alma, no dia seguinte. Na semana seguinte nos anúncios de jornais continham em letras grandes: Aluga-se.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Impressionável

Impressionante. Era a palavra que rondava havia horas a cabeça do cara que, recostado no velho sofá, abria uma cerveja gelada pra fugir do calor do verão das suas férias.
Naquela madrugada quente nada acontecia, nada ali dentro do seu pequeno apartamento quarto/sala, talvez algo no bar da esquina. Nada também na tv, ligada no mudo pra ocultar o chiado da ausência de sinal que caia sempre após as duas da manhã.
Encarava seus tênis rotos, imundos, esfarrapados. O velho Guidis que ganhou da avó.
O álcool fazendo efeito lhe trazia de volta aos tempos em que em dois minutos acordado num sábado era o suficiente para arrumar compromisso nada sério, como uma conversa no bar, visitas à um cabaré com os amigos ou quem sabe companhia pra noite toda. Mas eram apenas velhos tempos, afinal, aquela madrugada de domingo sozinho no sofá e cercado de papeis que lhe remetiam à segunda feira nada se pareciam com as de um ano atrás, nas suas ultimas férias sem emprego.
Sentiu saudade. Não era da família, nem dos amigos, nem dele mesmo naqueles anos que antecederam a formatura. Talvez da moça da farmácia que lhe atendeu tão bem que... Também não era carência. Pensou em ligar pra alguém, preferiu não incomodar. Um sorriso misteriosamente insistia em grudar no seu rosto, tanta felicidade que ele teve vontade de dividir com alguém. Quis ser egoísta dessa vez.
Pensou rapidamente nos problemas normais de quem se tornou independente há tão pouco tempo, mas isso não lhe deprimia, sentia-se tão bem que só sentia-se angustiado ao pensar em acordar com um humor tão diferente capaz de fazer uma grande besteira.
A tv voltava ao ar. A cerveja quente e ele com os olhos abertos, querendo não dormir, o sol invadia o cômodo e a persiana o incomodava lhe fazendo ficar com o corpo listrado.
Desprendeu as costas do encosto do sofá, foi ao banheiro prometendo nunca mais dormir, queria ter essa paz pra sempre, mas caiu no banheiro, descansou um sono pesado, tão satisfeito prometeu nunca mais acordar. Era alguém impressionável.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Há Guarda.

Seus 17 anos de idade já não lhe traziam mais toda euforia que devia lhe trazer por desfilar ‘sozinho’ pelas ruas diante de uma multidão doente, asmática e pneumônica.

Aos arredores da pequena cidade, mostrava-se um cenário condizente a tal situação. A decadência era presente na arquitetura, no clima úmido, na economia local e na política de abandono dos doentes vitimas de uma grande peste que devastava a cidade havia dois anos.

Glauber caminhava pela rua com as mãos no bolso do longo sobretudo preto, olhando ao chão como se preferisse não estar participando de tal catástrofe.

Passos antes de dar a volta na esquina, um carro de vidro escuro com calotas azul marinho encostava ao seu lado na Rua Arbeit F. e lhe chamava a atenção um homem que, pela janela, abanava com euforia como um velho conhecido que não via havia muito tempo.

O jovem seguiu em direção ao carro enquanto a porta se abria, e quando teve noção de espaço, já estava no banco de trás conversando com um homem de meia idade que parecia feliz com o reencontro e dizia conhecer Glauber desde seu nascimento. O homem se dizia sempre presente, mas preferia discrepância, achava que ser notável para o rapaz pudesse influenciar nas escolhas da sua vida, disse esperar esse encontro e conversa mais próxima para uma data mais longínqua, mas que uma fatalidade tornou esse encontro inevitável.

Glauber lembrou por instantes do tio que perdera por conta da epidemia, mas que sempre relacionou o sumiço do familiar às ações ditatoriais da época, já que seu tio trabalhou por longo tempo na imprensa, mas logo preferiu não dar ouvidos aos seus devaneios e passou a prestar atenção na viajem e nas palavras do homem, ainda um desconhecido.

Um cortejo entra no cemitério enquanto o jovem conversava sobre seu destino, o homem afirma que o funeral era o local pelo qual lhe dava a carona. Glauber entrando em pânico lembra de seu pai que já havia contraído a doença há algum tempo, mas a morte não parecia ser imediata, já que conseguiu doses da vacina enquanto essa ainda havia disponível no quartel onde seu pai trabalhava. O homem tentando lhe acalmar pede para que o garoto desça do carro e siga com ele até onde ele possa ver as velas, as flores e, enfim, o corpo.

Glauber segue o cortejo sem conter as lagrimas, afasta com certa agressividade a multidão de conhecidos e curiosos ainda na espectativa de que tudo fosse um engano.

Sentindo-se mal, deixa o local e pede para que o homem o leve para algum lugar mais afastado. Glauber esperava tudo, mas o que viu realmente o chocou, já que sua morte era algo que ele nunca esperava.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Farol de Westham

Albert Speer, acordou às 11 a.m. sufocado pelo suor de sua mulher e ansioso pelo cheiro daquela manhã em que resolvera não ir ao trabalho. Tomou um banho antes do café e outro após concertar o carro. A chuva limpara a rua arrastando a sujeira, os mendigos, as crianças e os desempregados, todos em direção ao bueiro central. O sol era ofuscado por nuvens cinzas e brilhava covardemente como uma estrela, tornando-se inferior à Albert, assim como a paisagem que agora dava lugar à imunda maquina do Sr. Speer, que derrapava em direção ao farol daquela pequena cidade litorânea chamada Westham, onde um dia houve grande fluxo de turistas, mas que agora era uma cidade abandonada devido o grande número de tempestades que há um ano atrás, no inverno, provocou grandes emigrações tornando-se quase uma cidade fantasma onde nem mesmo o prefeito residia mais.

Rose, a única mulher que Albert amava de verdade, contava com precária lataria, com rugas e crateras provocadas pela maresia, mas que mesmo assim nunca recusou um passeio até o farol, agora resmungava alto como se pedisse um tempo para descansar, para apreciar a paisagem ou para urinar mais alguns litros de óleo com tanquilidade.

Sobre o teto de Rose, Albert acende um cigarro molhado e curvo, e descansa olhando as nuvens passando rápido sobre seus pensamentos que se misturavam e se confundiam entre o prazer de ver a cidade se distanciando e o farol se aproximando com velocidade igual a sua, ou seja, mais de 80km/h, e isso parecia um recorde pra quem avaliasse a maquina parada no quintal imundo cercada de grama, madeira úmida e lixo domiciliar.

Após observar mais uma vez a presença humildemente ridícula do sol sobre sua cabeça, Albert sorri e entra novamente em sua querida esposa e dessa vez protegendo o pescoço com uma manta velha que descansava até então ao seu lado junto com suas luvas e seus óculos de sol, usados frequentemente à sombra e inclusive a noite.

Após 40 minutos, Albert chega ao Farol Westham. Ansioso e maravilhado sob os pés da grande ‘’escultura’’ imponente, assim como o Sr. Speer gostaria de ser, e não pensou duas vezes antes de abrir um velho Whisky Diablo e tomar como se tivesse acabado de atravessar Dacar a pé, e sobe as escadas tremendo como se estivesse indo em velocidade fetal às mãos do médico, como fez em novembro de 2011, e tropeça tamanho sua euforia ao ver a ilha de Burroughs, vista apenas por quem sobe o farol.

Tocando as vidraças do farol, Albert Speer medita para si mesmo, contemplando seus atos e sua convicção de que era sem duvida alguma, para ele, o único ser capaz de apreciar a vida pensando em si mesmo.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Sr. Queer.

De frente para a estante de livros o Senhor Queer procurava por Marlon Washer, os livros desse autor haviam sumido misteriosamente. Impaciente e sem tempo para procurar em outros cantos da casa, Queer decidiu que escreveria tão bem quanto o Sr. Washer, talvez, não com tanta clareza ou riqueza em detalhes, mas buscando espelhar-se nas obras do seu grande mestre.
Queer, que já não escrevia um romance ou drama desde os trinta anos de idade, passava grande parte do dia folhando seus velhos cadernos de poesia em busca de inspiração ao invés de esboçar um ensaio.
Deu titulo, encapou o livro, rabiscou uma imagem do que seria a capa, ligou para a editora, anunciou à publicidade. Mas suas mãos ainda nada falavam, nem um parágrafo mudo ou aspas como um escarro que precede a oração. Nada dele saia, nada em sua mente entrava, até seu sétimo dia de insônia, após descansar sobre a pauta com a caneta ainda em mãos, acorda e depara-se com a obra pronta, assinada, corrigida e nota que quatro dias haviam se passado.
Naturalmente confuso porem entusiasmado com o que teria acontecido, deu um telefonema à editora dizendo que estava a caminho com a obra em mãos.
Após um longo trajeto a pé, bate a porta da Editora South e entrega o caderno que cai de suas mãos como quem se livra de um peso dez vezes maior que seu próprio corpo, e talvez fosse, devido ao trabalho de quatro dias que ele mesmo não lembrava ter feito.
“Washer Marlon – o livro’’ estava entregue, seguindo em direção ao ‘forno’, com seu titulo anunciando total inspiração na obra de um autor que morrera alguns anos atrás.
De volta á sua casa a fim de descanso, Queer recosta-se em sua poltrona, onde descansa e faz reflexões durante anos, e com o passar do tempo não aguenta mais tanta pressão vinda do sucesso do livro. Decide mudar-se para o campo, querendo afastamento de seus compromissos com o publico e a imprensa, levando apenas uma de suas estantes de livros com um exemplar de ‘’Washer Marlon’’, a poltrona, lenha e uma arma para emergências.
No alto da montanha, Queer passa meses lendo e relendo obras do século XVII, comendo peixe e empalhando ursos.
Anos depois, refletindo em frente à lareira, encarando um peixe empalhado e mastigando uma dura carne de urso, Queer presume que enlouqueceu e decide voltar à cidade, deixando seus livros na cabana da montanha, levando apenas sua arma para emergências.
De volta à cidade, depara-se novamente com a estante de livros, procura por ‘Washer Marlon’, que havia sumido misteriosamente, decide ele mesmo escrever uma obra inspirada nesse livro, mas desiste na metade, aponta a arma para sua cabeça, dispara e acorda dias depois com a obra finalizada, assinada e intitulada ‘’Mellon and Blood’’.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Maio de 1968


Em Janeiro de 1968 um terremoto acabava de devastar a Sicília, na Itália. Lui viajaria à França a fim de concluir os estudos na universidade de Sorbonne, em Paris.

Após ter o dinheiro e as instruções necessárias para encarar a França naquele período, Lui segue viajem no inicio do mês de maio.

Subindo as escadas da estação, avista a poucos metros policiais da CRS espancando um grupo de jovens que escreviam frases como “Liberez nos camarades” em um muro próximo ao ponto de ônibus. O cenário era o mesmo por grande parte da cidade. Acampamentos cobriam o gramado de todas as praças. Sons de megafones misturavam-se pelas esquinas. A desordem era organizada por grupos de estudantes que estavam sem aula, pois protestavam contra o governo de DeGoulle. Lui, sem aula, casa ou comida, procura abrigar-se em uma das barracas sobre os gramados do parque. É acolhido por Iza, estudante, comunista, fumante e viciada em cinema. Contou sua vida a Lui, seus pais parariam a fábrica em quatro dias e ficariam por lá até o fim do protesto. Sendo assim, Lui já havia um lugar melhor para dormir, já que a barraca velha contava com precária armação.

No dia 9 de maio, Iza leva-o até sua casa, um apartamento no bairro Quartier Latin, seus pais acabavam de se deslocar para a fábrica da Renault.

O apartamento estava bagunçado, alguns pôsteres de Marx e alguns cartazes de cinema escondiam a cor da parede do quarto de Iza. Na cozinha os gatos devoravam o que sobrava do almoço e alguns pombos dormiam no sofá. Um ‘stereo’ reluzia perto da janela, alguns discos davam volume a pilha de obras, mas nada tão importante quanto o álbum de coletâneas que continha Jannis e Bob Dylan. Lui põe pra tocar sem permissão, a cerimônia não era bem vinda na casa de Iza.

Iza volta do banheiro, cômodo onde não havia porta. Lui desviava o olhar por trás da capa do disco enquanto ela voltava, ela sorriu e lhe deu um cigarro.

Lui ainda não sabia o que esperar dela, sabia pouco sobre suas opiniões, sabia pouco sobre a revolta que ocorria, seus planos eram outros, mas queria aproveitar enquanto estava ali de férias por tempo indeterminado. Então resolve conhecê-la melhor.

Acordam no dia 10, por volta das quatorze horas. Iza propõe um banho.

Naquela noite iriam participar de uma passeata, o risco de ferimentos era alto, a CRS estava cada vez mais agressiva, Lui estava a fim de ajudar nas barricadas, Iza ficou preocupada, mas acreditava em algo. O sangue também é vermelho, da cor da revolução.

Após uma macarronada e muito vinho, saem do apartamento em direção a concentração de estudantes no bairro vizinho. Entre carros queimados e barricadas feitas com o próprio asfalto retirado da rua, Iza segurava ao lado de uma estudante da Universidade de Nanterre uma faixa que ‘dizia’: "Nós somos todos judeus alemães". Logo a frente, Lui e mais de dez jovens destruíam o asfalto, levantando barreiras enquanto a policia respondia com violência. Após cinco explosões de molotov e o cheiro do gás de mostarda ainda no ar, a CRS avança com força praticamente esmagando os trabalhadores e estudantes a sua frente. Os carros e os corpos misturavam-se como sucata, os gritos de protesto eram silenciados ou abafados por gemidos de dor, Iza e Lui se abraçam e sentem que fizeram sua parte e que é preciso sair do local, mas segundos depois notando sua ação como um ato de covardia, Iza decide que se entregar naquela hora seria guardar-se pra uma futura vitória. Então juntos, esperam que os policiais da CRS levem-nos para passar uma noite de tortura, até que no próximo dia sejam postos em liberdade e em condições de lutar novamente com mais obsessão.