quinta-feira, 14 de maio de 2009

Estação I

Shepard ouvia o barulho dos vagões de longe, antes mesmo de chegar ao acesso subterrâneo da estação. Do nariz escorria a coriza que após ser seca pelo lenço fazia extrema falta quando sentia a ardência de uma assadura nasal.

A manhã cinza que voltava, com uma espécie de nevoa que lembrava o fog londrino, escondia qualquer coisa ou pessoa que se distanciasse pouco mais de 5 metros dos olhos de Shepard. O trafego constante sobre a estação balançava a estrutura e produzia um som parecido com o de uma fabrica de estofados.

Lembrava ali que estava atrasado, mas naquela manhã os detalhes eram tão prazerosos quanto para Jean Pierre Jeunet.

Próximo as escadas da estação, oito pombas brigavam por um pedaço de pão à sinfonia de espirros, escarros e vozes. Shepart quis fotografar, mas sua câmera estava no prego junto com seu relógio. A casa de penhores ficava um pouco mais ao centro e lá havia deixado sua aliança para pagar o caixão de sua esposa.

Seu metrô chegou. Ele não sabia ao certo se era metrô, se era trem, mas 60% do percurso era feito fora do subterrâneo. O trem seguia vazio e Shepard ia sentado, escrever algo era necessário. Então, abriu aspas.

“Convivo num mundo onde não se tem certeza, a relatividade vira desculpa e a garantia das coisas é relativa. Apodreço ao longo dos anos e passo a reparar em coisas que quando era mais novo não notaria. Contraio uma virose por dia, enquanto meus ombros me cobram descanso. Lembrei que um emprego era tudo o que eu queria quando tinha 19 e agora mais velho reparo nas pombas lembrando os impostos. Eu podia ter ido pra ilha com aquele pessoal de 73, mas pensei que fosse utopia e acreditei que seria feliz se trabalhasse por conforto, o qual nem tenho tempo de aproveitar. O esquecimento é algo importante depois de um tempo, minha cabeça não aguentaria tão pouca felicidade. Mas quando saio do ônibus e entro no trem eu lembro que hoje fico mais velho e cada vez mais faço parte da cidade. Um dia eu vou morrer, talvez amanhã, e disso tudo nada valeu a pena de verdade. E pela ordem das coisas, empenharão um relógio pra eu apodrecer com dignidade”.

Shepard seguiu viagem.

2 comentários:

Tamyres Palma disse...

Ah, coitado do Shepard...

noelle disse...

"Contraio uma virose por dia, enquanto meus ombros me cobram descanso." - demais essa frase.

e o texto, como um todo, TOTALMENTE CINEMATOGRÁFICO. porra, da pra ver e cena.