sexta-feira, 3 de julho de 2009

Farol de Westham

Albert Speer, acordou às 11 a.m. sufocado pelo suor de sua mulher e ansioso pelo cheiro daquela manhã em que resolvera não ir ao trabalho. Tomou um banho antes do café e outro após concertar o carro. A chuva limpara a rua arrastando a sujeira, os mendigos, as crianças e os desempregados, todos em direção ao bueiro central. O sol era ofuscado por nuvens cinzas e brilhava covardemente como uma estrela, tornando-se inferior à Albert, assim como a paisagem que agora dava lugar à imunda maquina do Sr. Speer, que derrapava em direção ao farol daquela pequena cidade litorânea chamada Westham, onde um dia houve grande fluxo de turistas, mas que agora era uma cidade abandonada devido o grande número de tempestades que há um ano atrás, no inverno, provocou grandes emigrações tornando-se quase uma cidade fantasma onde nem mesmo o prefeito residia mais.

Rose, a única mulher que Albert amava de verdade, contava com precária lataria, com rugas e crateras provocadas pela maresia, mas que mesmo assim nunca recusou um passeio até o farol, agora resmungava alto como se pedisse um tempo para descansar, para apreciar a paisagem ou para urinar mais alguns litros de óleo com tanquilidade.

Sobre o teto de Rose, Albert acende um cigarro molhado e curvo, e descansa olhando as nuvens passando rápido sobre seus pensamentos que se misturavam e se confundiam entre o prazer de ver a cidade se distanciando e o farol se aproximando com velocidade igual a sua, ou seja, mais de 80km/h, e isso parecia um recorde pra quem avaliasse a maquina parada no quintal imundo cercada de grama, madeira úmida e lixo domiciliar.

Após observar mais uma vez a presença humildemente ridícula do sol sobre sua cabeça, Albert sorri e entra novamente em sua querida esposa e dessa vez protegendo o pescoço com uma manta velha que descansava até então ao seu lado junto com suas luvas e seus óculos de sol, usados frequentemente à sombra e inclusive a noite.

Após 40 minutos, Albert chega ao Farol Westham. Ansioso e maravilhado sob os pés da grande ‘’escultura’’ imponente, assim como o Sr. Speer gostaria de ser, e não pensou duas vezes antes de abrir um velho Whisky Diablo e tomar como se tivesse acabado de atravessar Dacar a pé, e sobe as escadas tremendo como se estivesse indo em velocidade fetal às mãos do médico, como fez em novembro de 2011, e tropeça tamanho sua euforia ao ver a ilha de Burroughs, vista apenas por quem sobe o farol.

Tocando as vidraças do farol, Albert Speer medita para si mesmo, contemplando seus atos e sua convicção de que era sem duvida alguma, para ele, o único ser capaz de apreciar a vida pensando em si mesmo.

4 comentários:

ninainwonderland disse...

o final ficou perfeito. amei.

maga m disse...

finalmente encontrei alguém que escreve bem nesse mundo perdido que é a internet.

talvez possamos conversar...

magametralha@gmail.com
magametralha.blogspot.com

Bertolucci disse...

- O teu poder de me surpreender ainda é grande. E tu sabes que isso é difícil.

A visão do paralelo é exatamente esse.
A mesma que a minha.

Congratulations ;*

Carlos disse...

Lamento não estar por meio deste comentário a falar do seu texto, mas apenas lhe avisar algo que está acontecendo.

A "dona" do blog You can sleep when you're dead, Priscila Eme, está plagiando textos de outras pessoas, uma delas uma amiga minha, a dona do blog Devaneios & Loucuras, que é a verdadeira autora do texto intitulado Rachel - Devassa (Parte I), cujo título original é apenas Devassa.

Outros textos - por exemplo, São seus olhos - também não são de autoria dela, mas de outra blogueira.

Só gostaria de avisar que estes dois textos, e talvez outros, não são dela, mas de outras pessoas. Lamento incomodar, mas não acho correto o que ela está fazendo.