sexta-feira, 9 de abril de 2010

Saravá, pra casa.

Era por esporte que Fepa vivia. Não vivia ''pelo'' esporte. Mas só estava vivo para continuar jogando, para continuar, apenas, vivendo.
Não que
Fepa fosse desmotivado, depressivo ou intolerante com a vida, mas não via muita razão nela, mesmo sem deprimir, não via razão à viver.
Descia até a rua menos movimentada do bairro (a sua, o seu -
perspectivamente) pendurando-se sobre a janela do andar de baixo e escorregando pelo pilar da sacada século XVIII, que embora muito velha, permanecia mais de pé que seu amigo Pedro que chegava sempre "meio bêbado'' para acompanhar Fepa nas longas trilhas sem destino que percorriam durante o dia, ou até mesmo parte da noite, ou madrugada, até que chegasse as 2h da manhã e como era quase sempre dia de semana (haviam dias de semana 5 ou até 6 vezes por semana) Fepa não via motivos para atormentar o sono da sua preocupada mãe que trabalhava parte do dia como costureira e outra parte como noveleira. Então se despedia de Pedro e voltava. Apenas fisicamente. A mente de Fepa ficava na rua, olhando pra última bagana de cigarro desperdiçada pela pressa. A pressa de chegar antes do primeiro relampejo que viria a acordar sua mãe, que preocupada notaria a falta de Fepa dormindo na cama, ou como na maioria das vezes, no sofá.
Foi numa dessas viagens sem rumo ao lado de Pedro que
Fepa notou o seu pouco entusiasmo em viver. O animal se distingue do homem pelo fato de aceitar a morte antes mesmo de morrer. Os homens não aceitam a morte nem depois de mortos - pensou Fepa ao passar pelas tripas de um cão jovem, pouco experiente, entre as latas e as marcas de pneu no asfalto. O cão sabia que devia estar lá.
Fepa pouca coisa havia conseguido na vida ao longo de seus breve 25 anos. Conheceu poucos lugares e o mais longe que foi, talvez fosse aquela fazenda perdida no meio do nada, onde recuperou-se de seus vícios/prazeres e onde entendeu pra que serviria o fim. Fepa sentia saudade misturada com um sentimento ''DeLargeano'' quando via Pedro vomitar - a pouca grana que havia ingerido - pela sarjeta e chorar pela mulher que sempre quis, e sabe que só podia querer. Pedro estava vivo. Fepa era um cão, com total noção da hora que iria morrer. Com toda sua esperança depositada nesse ato natural que um dia todos viverão para ver.

3 comentários:

Virginia A. disse...

Fuçando os orkuts alheios, acho um blog bem legal :)

Curti muito os textos!
Gostei de como você escreve... você escreve bem.

torradastostadas disse...

como é bom estar de volta, né mr. rubem!

Felipe disse...

Rubão, você tá cada vez mais afiado e cru! E escrevendo muito bem, como sempre.
O que será que tornou Fepa um Fepa?
Às vezes penso que essa consciência de morte, essa aceitação, é uma das coisas mais valiosas da vida; uma das chaves mestra.

Abraço!