segunda-feira, 11 de março de 2013
E então você procura algo para ler
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
Nada acontece na vida de Sandro
sexta-feira, 20 de abril de 2012
COTIDIANO DO BAR
Na outra mesa de sinuca, Amor e Paixão eram atraentes gêmeas bivitelinas, totalmente diferentes uma da outra. Faziam uma partida contra os gêmeos, Pena e Compaixão, que eram univitelinos.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
O cão

Saí do carro, a chuva caia fina, subi os degraus de madeira, atravessei a varanda com a cabeça baixa e então olhei para o lado e o banco que estava vazio, enquanto eu planejava meu destino de dentro do carro, era onde agora estava ela. Negra, cabelo crespo e longo, os lábios vermelhos me chamavam mais que a atenção, eles chamavam meu próprio nome e ela os calava colocando o gargalo da garrafa entre eles. Então voltei para dentro do meu corpo e entrei no recinto.
O velho do balcão, com uma aparência estranha, a pele esverdeada, alcança minha cerveja e não pergunta nada. Ele frita ovos na chapa e eu bebo próximo ao banheiro, como sempre. Não que meus rins sejam fracos, mas quando sentava perto da porta eu costumava arrumar mais confusão. Apenas evito.
Acendi um baseado e o velho de aparência esverdeada apontou para a porta da rua, quase não acreditei. Eu pensei que naquele lugar deserto as leis não valiam, é assim em qualquer lugar. Existe liberdade nos lugares mais remotos, mas apenas nesses lugares. Eu apaguei o cigarro e pensei se era hora de ir para a rua conversar com aquela mulher. Queria saber de onde ela veio ou se ela queria ir para algum lugar. Resolvi esperar mais um pouco.
Coloquei o isqueiro no bolso e pedi outra cerveja. Então quando sinto alguém se aproximar, é ela. Ela passa pelo rádio que estava em uma freqüência incerta e de alguma forma a sintonia capta o sinal de uma rádio local, toca blues. Ela passa por mim, eu sinto o cheiro do perfume dela, parece algo natural, parece que ela acabou de rolar entre flores do campo. Sinto o perfume até ela cruzar a porta do banheiro. Não quis olhar ela nos olhos, ela podia me deixar louco com aqueles grandes olhos castanhos.
Eu vou para a rua e enfim acendo aquele baseado – e lá de dentro o homenzinho verde faz um sinal positivo. Ao menos na rua posso colocar a fumaça que eu quiser para dentro dos meus pulmões. Não dou a terceira tragada e ela aparece ao meu lado, senta e me encara. Eu sinto ela olhar, mas não olho. Ela dá um gole na cerveja, eu ofereço meu cigarro, ela aceita. Pergunto o nome dela e ela finge que não escuta. Me devolve o baseado e pergunta para onde eu vou. Eu respondo e ela diz que conhece muita gente de lá. Eu digo o nome da família que estou indo visitar e ela diz que conhece o Tio Carlos, a mulher dele, comenta sobre ele sofrer de constante paranóia e diz que conhece seus filhos também – Os meus primos, mas eu não quis passar mais informações. Pergunto onde ela vai dormir, ela diz que não vai dormir. Eu desisto de perguntar.
Agora ela já sabe onde eu vou e quem eu conheço. Eu não sei de nada, nem vou saber. Ela não quer que eu saiba. Ficamos observando a chuva começar e parar novamente, ambos em silêncio. Eu sinto um peso nos meus ombros e é a cabeça dela, o cabelo crespo, macio, suas mil voltas, aquele labirinto que tinha o cheiro do campo. Ela está dormindo. Aquela erva deve ter pego ela de surpresa.
Eu não sei quem ela é, eu não sei porque ela está dormindo com a cabeça no meu ombro, não sei se devo deixar ela dormindo ou acordá-la e oferecer meu carro. O blues não para de tocar naquela rádio, raios caem e ela acorda. Ela estica os braços, afastando a preguiça e procurando energia para levantar. Eu pergunto se ela quer dormir no carro. Ela diz que sim. Pago a conta, ela não paga – eu não entendo. Não importa. Ela deita no banco de trás e eu procuro uma estação de rádio e só sintoniza a rádio blues que tocava no bar. Eu empurro o banco para trás e ela coloca a mão no meu peito abrindo os botões da minha camisa com suas unhas vermelhas, eu pulo para o banco de trás. Ela era o diabo.
Acordo com o sol queimando meu rosto. Lembro que preciso ver o que houve com o carro. Abro o capô e mal consigo avaliar a elétrica por causa da forte dor de cabeça. Ela sai do carro pronta para se mandar dali. Eu pergunto para onde ela vai. Ela aponta para uma pequena rua de terra que corta o campo que fica do outro lado da estrada – o que eu não pude notar durante a noite. Pergunto se ela mora ali. Ela não responde. Eu sinto que preciso dormir mais um pouco, fecho o capô. Ela se despede e atravessa a estrada em direção ao campo. Entro no carro, durmo, acordo com fome, tento ligar o carro, ele parece dar resposta. Tento outra vez e ele liga. Eu sigo. A radio toca blues até eu chegar na cidade do Tio Carlos. Ele diz que o diabo anda por aí, solto como nunca, correndo entre os campos. Eu abraço sua mulher e pergunto se ele anda tomando os remédios, ela diz que sim. Na verdade eu sei que ele está certo.
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
AS VIRTUDES DO VICIO
Sobre sua poltrona de lata e seu altar de alumínio com seus santos de vidro expostos como troféus de guerra, Emanuel bebe e pensa na vida, dentro do templo que ele chama carinhosamente de boteco. Ele pensa na vida como se tivesse chegado ao ponto final, porém não pensa no ponto final, mas sim no passado, no caminho que tomou e honrado está por ter chegado ali. A memória está boa.
Ele lembra quando tinha os dentes pouco manchados pela nicotina e o nariz limpo, a cabeça com muitos cabelos voava longe de frente pro mar, sentado na areia enrolando seu primeiro baseado. O primeiro do dia. Apenas mais um depois de muitos outros dias passados e futuros.
Emanuel agora está em uma festa. Tem amigos com ele e o ritmo que entra pelos ouvidos não é mais forte que o ritmo que entra pelo nariz e acelera o coração.
Agora ele lembra de uma sensação de vitória, quando descia no aeroporto e entrava nas ruas desertas falando outra língua, um novo cardápio. Speed-ball! Sorria como criança que aprendeu um palavrão novo. Sorria e falava. Falava e bebia. Acordava com saudade de casa.
Desceu do avião novamente e foi para a praia. Transou com uma índia e uma cigana. Como era bom o carnaval. A cigana tinha no rosto o suor e a lua. A outra apenas batom. Na língua de ambas um microponto para cada uma. As estrelas se foram ao chão, parecia o lugar certo para elas. Não era ilusão. Então a cabeça dele saiu para passear.
De terno, gravata e o cabelo tão pouco e cinza, obedecia a alguém que apenas ordenava e nunca aparecia. Apenas impunha. Brincava de ser Deus, porém existia. Os papeis voavam da sua mão e, o escritório de paredes e moveis brancos de ensurdecer, começou a encher de água. Sentiu afogar. Acordou com a índia e a cigana puxando o seu corpo para longe da maré que agora baixava novamente enquanto o sol nascia.
Um dia acordou e tentou lembrar esse sonho. Não lembrou. Então descobriu que não era sonho, era uma visão. Poderia ser ele, longe dos vícios, se um dia houvesse escolhido outro caminho. Pensou que então poderia ter se afogado em compromissos. Era uma boa interpretação. Mas descartou ser uma visão do futuro, isso jamais.
Agora lembra que logo é segunda. E ele ainda no bar, em frente às garrafas, na cadeira de lata fria. Sente saudade de casa, mas está em casa, é só caminhar. Levantar é quase impossível. Ele tenta, consegue e ainda paga o que bebeu. Leva no caminho mais 600 para a viagem, pra garganta não secar. Caminha pela velha praia, dorme na areia.
Pela manhã a praia está diferente. A cigana e a índia o acordam novamente depois de 30 anos, mas dessa vez não é carnaval.
domingo, 26 de junho de 2011
Nova Ordem Mundial
Enfim, fizemos a viagem, a família toda. Vimos cometas chocarem-se, explosões de supernovas, ouvimos o barulho do Sol. Eu não ia com a família para a orbita terrestre há anos – na última vez, nosso filho ainda estava na proveta e a Hari nem sabia dessa surpresa que eu tinha preparado, já que ela sempre reclamou por eu ter feito vasectomia, então eu comprei esse presente pra ela. Logo nos casamos. Nessa viagem levei a Hari para conhecer um aparelho que permitia o contato extradimensional com pessoas que já haviam “partido” – agora essa palavra fazia mais sentido nesse caso, pois tínhamos total certeza de que foram para outro lugar. Com esse aparelho, com base nas leis da física quântica, podíamos fazer contato com essas pessoas que já não estavam mais na mesma dimensão que a nossa. Logo que fizeram essa descoberta, a ciência, a fisica e a tecnoligia pareciam ter chegado no seu ponto mais alto, porém em seguida a questão mudou de “para onde vamos?” para “como chegamos lá?” e logo novos cientistas-filósofos surgiram. Junto com esse aparelho, chegou a banalização do suicídio, pois o ato passou a ser encarado como uma forma de viagem (sem volta) para uma nova dimensão – mesmo que alguns partam para dimensões onde não podemos fazer contato.
Quando o sol iluminava o lado da terra por onde a base estava passando, usávamos uma espécie de óculos de lente vermelho escuro, que nos permitia olhar a terra sempre repleta de furacões por todos os lados que mal podíamos ver os continentes, mas era sempre uma experiência diferente. Gostamos tanto da vida na Base, que continuamos aqui até hoje, ainda estamos nos acostumando a ver a terra de longe, às vezes parece que fomos feitos pra viver somente lá, mas a Ordem nos oferece tudo por aqui, nosso dinheiro rende, diferente do planeta, que de tempo em tempo nos obriga a pedir ajuda pro governo.
A Hari tem um arquivo que fala sobre dias ensolarados naquele planeta, mas eu duvido que isso um dia tenha existido. Ela acredita também que um dia um homem lutou contra a Ordem IEAN, quando a ordem se chamava apenas EUA e que esse homem foi morto por eles, mas depois disso a Ordem perdeu força por anos, quando começaram os cataclismos. Eu não acredito nesse arquivo que ela tanto lê e costuma dizer que antes de dormir é bom falar o nome dessa pessoa algumas vezes pois, segundo o livro dela, isso ajuda em alguma coisa. Para mim a terra sempre foi como é agora, ninguém lutou contra a Ordem, com exceção da Nova URSS - e a Ordem acabou com eles sem usar armas. Ninguém atacou a IEAN, nem nunca vai atacar.