quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
Pneumotórax
Esse corpo franzino passeia pelos parques de Porto Alegre em busca de formigueiros, vespeiros e qualquer outro ninho de praga. Ele um dia mirou seu canhão de inseticida para ele mesmo, sem pensar em suicídio, pensava apenas em resumir a queda que é a vida. Tossindo demais, não conseguiu mirar seu rosto. O veneno não alcançou suas mucosas e ele não teve êxito na tentativa.
Tenório herdou da mãe uma coleção de discos de Mercedes Sosa e ele canta todo dia "Gracias a La Vida" com ironia, toma banho com sabão e vai dormir. Sua casa fede a veneno.
No apartamento ao lado mora uma moça chamada Verônica. Ele sempre ouve Verônica reclamar das baratas quando fala ao telefone com uma amiga, sempre a mesma amiga. Um dia ele oferece seus serviços a ela, promete exterminar qualquer inseto daquele apartamento. Ela aceitaria e ele faria sexo pela primeira vez. Mas ela não aceita, pois tem medo dos olhos estrábicos de Tenório e de sua cicatriz por conta de uma traqueostomia. Ele nota a distância que ela toma para responder e mentir sobre a existência das baratas. Ela nega o fato de existirem esses insetos no seu apartamento e, assustada com a presença inesperada do estranho vizinho, fecha a porta.
Tenório ouve Verônica cantar no chuveiro todos os dias. O som sai da janela do banheiro dela e entra pela janela do quarto dele.
Um dia o canto alto de Verônica deu lugar a um choro baixo, típico de um ataque de pânico. Tenório pode ouvir, pois escutava com atenção a cantoria da vizinha enquanto tentava esquecer sua tentativa frustrada de prestar serviço a ela, então logo imaginou ser uma invasão daqueles insetos que Verônica tanto reclamava ao telefone.
Tenório viu ali a chance de mostrar sua capacidade de executar um bom serviço.
Ele teve uma ideia e não hesitou por em prática. Tenório dependurou-se no parapeito da janela do seu quarto e colocou a mangueira do canhão de inseticida – assim ele chamava o artefato – na janela do banheiro da moça que continuava a chorar e disparou um litro de inseticida para dentro.
Tenório suspirou ao ver o trabalho completo e bem feito e ouvir o silêncio pleno tomar conta do banheiro vizinho, com exceção de Oh! You Pretty Things, que continuou tocando no rádio da vizinha. Tenório acabava com mais uma praga na sua vida.
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
Éramos 3
Quinze anos e passando pela segunda vez pelo primeiro ano do ensino médio, já com certa experiencia sobre as matérias desse nível, comecei a matar aulas e criar amigos, que permanecem amigos até hoje e com certa frequencia nos encontramos casualmente em algum ônibus ou não por acaso em alguns bares. Foi pensando nesses colegas que se tornaram amigos que lembrei dos amigos de infância que se tornaram apenas colegas. Éramos três. Dos oito aos quatorze, fomos três grandes amigos, depois cada um seguiu seu rumo sem mudar de endereço. Ainda nos encontramos na rua, na nossa rua, na rua onde jogávamos futebol - eu com pouquíssima intimidade com a redonda - porém o papo nunca dura o bastante para marcarmos tomar uma cerveja, os três, como em antes de 2006 - nessa época, sem a parte da cerveja. Por isso pensei, porque não marcar logo esse encontro com o passado, saber dos planos futuros e lembrar de algum vidro quebrado, alguma vizinha gostosa que hoje deve ser mãe solteira de três filhos, pois assim as coisas são. Seria impossível. Faz pouco mais de uma década que facilmente éramos vistos juntos com uma bola embaixo do braço ou bolitas no bolso, discutindo sobre quem fez o golaço do domingo naquela praça onde hoje as goleiras já foram retiradas, mas seria impossível pois temos uma coisa que hoje gostaríamos talvez de não ter. Compromisso. Dos três, o mais novo já encontra-se casado e é pai, nada planejado, mas ele administra tudo muito bem com um certo jeito brasileiro. O outro trabalha na cozinha de um hotel de uma rede internacional, além de fazer parte de uma espécie de coletivo que une cozinha e vídeos de skate - não faço ideia de como. Enquanto, eu, penso em escrever um livro e reunir os velhos amigos, não parece muito promissório, ou talvez o mundo ainda esteja pronto para tanto.
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
Universo Inconsciente
Um ser totalmente lúcido e transcendental apóia-se no parapeito do edifício mais alto da maior cidade do universo que contem mais carbono do que oxigênio na única atmosfera que contem o elemento crucial a sobrevivência na galáxia inteira pelo fato de ser, em tese, o único lugar onde há seres vivos, céticos, egoístas e certos de sua existência impar até que provem o contrário (para quem?). O nome do ser é Ângelo e somente ele observa a vida de fora e do alto sem precisar ser divino ou contemplado, apenas observa ali a coexistência do caos entre e dentro de cada ser humano ou objeto animado, seja por força física ou natural. Tudo que se move reflete e absorve o caos de e para o universo em uma dimensão astronômica e apenas limitada pela unidade de medida humana, mas infinita na sua real proporção.
Ângelo reflete sobre a palavra liberdade, morte e existência. Ele pensa sobre o mundo como um todo e para ele o ser humano é uma nano partícula e mesmo assim absorve a culpa de um mundo inteiro sobre seus ombros por vontade própria, mas não por um ato heróico, mas sim, por ato de covardia. O ser humano que Ângelo observa é o homem que tem para si a missão de entender o universo tentando colocá-lo sob sua própria nomenclatura. Ângelo repudia a atitude de falta de “percepção de todo” da humanidade e retorna de onde veio. Ângelo apaga seu cigarro e recolhe-se a sua insignificância. Ele retorna ao universo das eternas possibilidades. Ângelo retira seus olhos do microscópio ao mesmo tempo em que o mesmo Ângelo afasta seus olhos da lente do telescópio, embora esse último sem ter para si alguma resposta qualquer.
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
Quero ser um escritor maldito. Vol.I
sábado, 20 de novembro de 2010
Denise, eu te odeio!
Eu tava de porre no sofá quando recebi a ligação do meu chefe perguntando o motivo da minha ausência no trabalho, respondi nada com nada e desliguei já com remorso da cagada que eu acabava de cometer. Terminei a garrafa de vinho e fui correndo porta à fora, na chuva e logo em seguida porta à dentro em um boteco de esquina, daqueles com duas portas, uma para cada rua. Acordei no outro dia com uma ressaca fulminante e querendo saber onde eu havia perdido minha carteira e quem sabe minha dignidade também. Liguei para Denise e ela disse que viria, mas entrei no banho ainda sem saber à que horas chegaria. Ela recém havia acordado e eu estava de ressaca, meus olhos pouco se abriam, não conseguimos nos programar muito bem, mas ela viria.
Enquanto eu dormia no chuveiro Denise tocou a campainha. Ao ouvir o som estridente que chacoalhava meu cérebro, a imagem de Denise, morena – quadris – largos – olhos – escuros, configurava-se em meu subconsciente até eu despertar – Sempre que de ressaca, me alertava para chamar Denise, pois sua voz tranquilizava meu “dia seguinte’’. Ela sempre vinha.
Denise, impaciente, começou a provocar um tumulto no prédio enquanto eu tentava me vestir com pressa. Denise tinha 18 anos e eu 23, porém sempre me tirando para bundão, a ainda adolescente acabava por me comandar desde a chegada até o final de sua visita.
Ela foi direto para o quarto. A maconha que a Denise trazia sempre me deixava anulado; mudo, surdo e irracional. Um primata. Um troglodita. Um espermatozóide.
Quando entrei no quarto ela já bolava um bom plano e um belo baseado. Denise tinha um sorriso sincero e muita habilidade com as mãos.
Ela eu conheci no cinema do aeroporto. Carioca espaçosa, quando vi já estava me fazendo essas visitas para cuidar da minha ressaca, ou até mesmo bebendo junto comigo, cultivando uma ressaca. Carioca encantadora; depois dela não precisei amar ninguém. Não estávamos nem perto de um relacionamento, mas ela valia por todas juntas na minha cama. Carioca imoral; não tinha limites e não tinha vergonha. Aprendi com ela tudo que eu não precisava, segundo a moral da sociedade.
Aproveitamos nosso nível de "descompromisso" causado por aquilo que pra mim a Denise tem, de fato, plantado no seu quintal e fomos para o boteco do Alfredo – seguindo desta forma, o plano dela para o dia e para a noite –, lugar onde provavelmente esqueci minha carteira. Quando o Alfredo achava, me devolvia, se não achava eu fazia questão de esquecer que um dia eu tive. Um dia Alfredo encontrou uma ex-namorada minha, eu voltei com ela por um tempo, mas só porque o Alfredo havia achado e me devolvido – Depois fiz questão de perder ela bem longe. Outro dia Alfredo me achou jogado na calçada e me fez voltar para mim – Eu estava muito mal nesse dia. Alfredo um dia achou a Denise a melhor mulher do mundo e perguntou porque eu não casava com ela. “Eu não amo, Alfredão.”, respondeu Denise. Ele não precisava ter perguntado na frente dela. Essas frases me matavam. Não somente seus comentários desgostosos, mas também sua aprovação exacerbada, sua paixão forte, porém momentânea, que só ela sabia equilibrar com um pouco de algo que eu ainda não identifiquei em nenhuma outra mulher. Sei que era momentânea, pois ela contava suas histórias de fuga. Eu já não sabia de onde ela era e ela já não sabia pra onde ia. Ela só sabia que um dia não estaria mais ali, aqui ou lá.
Amor e ódio resumem Denise, e ela, mesmo apenas sendo descrita em palavras, sem foto, apenas seus fatos e frases, podem causar desajuste na mente de um cara fraco para mulheres. Ela não era um ser perfeito nem tampouco anormal, era ela e o mundo paralelo dela e mentia pra mim que eu pertencia a esse mundo e mentia ao mundo que ele pertencia a ela.
No outro dia eu acordo sem ressaca nenhuma, sem carteira perdida, apenas com um nome e um número a menos na agenda.
Corri na chuva porta a fora e em seguida o bar eu adentro procurando por Alfredo, filho da puta, onde se meteu o Alfredo? Ele respondeu esticando a cabeça até a altura do balcão e eu o questionei como se ele olhasse por mim diariamente a todos os meus pertences: "Onde diabos está Denise?" e ele respondeu, é claro: “Eu não sei.”
Foi embora, a Denise, como mandava seu roteiro. Por isso, Denise, eu te odeio!
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
A verdade é ficção. I
Eu já tava achando estranha essa historia da Patrícia (que, até onde eu sabia, namorava com o Marcelo há dois anos) me chamar pra conversar num bar. Ta certo, eu sempre achei que ela fosse assim mesmo - quer dizer, sempre achei que ela fosse ‘’sem problemas’’ – tudo bem, beber com um amigo que não vê há anos não é pecado, tão pouco traição, mas não me saía da cabeça perguntar para ela se o Marcelo ia junto ou não, mas ela é tão gostosa que eu evitei empecilhos e aceitei de cara. Esperei horas – mais ou menos 3 cigarros - e nada dela chegar, daí eu comecei a beber e meu plano de deixar ela bêbada pra perguntar o porque do nosso reencontro sem nenhum motivo aparente foi por goela a baixo empurrado por três garrafas de cerveja.
Quando a Patrícia entrou no bar eu já tava com um certo brilho no olhar e já tava afim de pedir a conta e convidar ela pra conhecer meu quarto/sala novo que eu havia alugado de um amigo que foi fazer “sei lá o que” no exterior.
Beleza! A Patrícia chegou bem no momento em que eu voltei do banheiro pra dar “aquele mijão” típico de quem já tá começando a sentir o álcool entrando no sangue e adormecendo a sua cara. No meu caso, o álcool já havia adormecido também minha cara de pau. Eu cumprimentei ela de longe logo que vi ela entrando naquele boteco estrategicamente escolhido por ser próximo ao tal apartamento. Como eu já não coordenava minha fala muito bem, reclamei do frio que fazia naquela noite só para disfarçar minha fala meio “torta’’. Enfim, cumprimentei ela também com um abraço apertado, coisa que eu jamais faria sóbrio – ainda mais sem perguntar antes pelo tal do Marcelo, seu namorado ciumento. Demorei um pouco para localizar onde eu tava sentado antes de ir ao banheiro e durante os primeiros 10 minutos da nossa conversa eu tentava lembrar se realmente era ali o local onde eu havia sentado antes.
Já estávamos conversando há mais ou menos duas horas, falando sobre o passado, sobre a escola e sobre o que estávamos fazendo atualmente. – atualmente eu só andava bebendo, fumando e procurando emprego, mas menti que estava de férias. A Patrícia sempre foi fraca pra bebidas, inclusive para bebidas sem álcool. Diziam que um dia ela passou mal depois de tomar uma lata de cerveja... cujo teor alcoólico era zero. Acho que ela fazia certas coisas “para aparecer”, por exemplo, ela me ligava de madrugada e falava que não conseguia dormir e perguntava se eu não tinha o numero do Marcelo, porque ela tinha trocado de celular e esquecido o numero do cara – veja só, pobre moça sem memória! Eu sempre dizia que não tinha, aí então me oferecia como ombro amigo e ela aceitava. Acho que eu sabia mais sobre ela do que o próprio namorado dela, aliás, ela nunca mencionou ele como um namorado, mas só dava pra ele há um ano e meio mais ou menos e isso eu sei também por ela ter me contado em uma dessas ligações noturnas – sim, eram esses os assuntos, mas eu sentia que ainda ia lucrar sobre isso.
O bar fechava às duas horas da madrugada, na verdade era uma espécie de lanchonete – escolhi esse lugar vocês já sabem por quê.
A gente foi pra frente da lanchonete e sentamos um pouco na calçada até terminarmos nossas latas, as ultimas, até que entrássemos no quarto e sala e abríssemos aquela preciosa geladeira vermelha onde eu guardava meu estoque etílico e nos afundássemos no álcool até que ela esquecesse se tinha namorado ou não. Aliás, eu ainda não havia perguntado – eu realmente tava com medo de perguntar isso e ela responder com um: ‘‘Tu estás confundindo as coisas, amigo”, sabe como é – Então a Putricia, assim alguns amigos meus chamavam ela na época de escola, virou a boca da lata em direção ao chão e falou com certa tristeza no olhar: “Acho que acabou...’’. Então eu, cavalheiro que sou, falei que tinha mais no “meu” apartamento e que ele ficava ali perto. Após isso o inferno começou. Ela respondeu que era uma boa idéia, já que o (filho da puta) Marcelo (esse nome ecoou na minha cabeça por um longo período) só poderia buscar ela após as dez da manhã, pois teria prova na faculdade – o retardado era contador e pessoas que vêm ao mundo para estudar exatas simplesmente não sabem ter um bom papo e a vida é feita de bons papos – Besteiras a parte, levei ela mesmo assim pro recinto. Tava bem imundo e ela meio que reclamou, mas depois que viu a geladeira sentiu-se mais à vontade. Eu já não tava afim de conversar e não sabia mais se ela queria dar ou não. Essa certeza, aliás, eu não tive em nenhum momento perto dela. Enfim, bebemos até ficarmos tão bêbados a ponto de conversar no banheiro enquanto ela “aliviava” – fato que no outro dia eu repudiei e tentei esquecer – Acordamos no outro dia de manhã, eu não lembro como eu fui capaz de dormir no chão e ela no sofá. Eu não lembro também como eu fui capaz de acordar de roupa perto daquela mulher. Enfim, acordei com o filho da puta ligando pra ela. Ela deu o endereço e disse que tava na casa de uma tia, ele foi buscar e é lógico eu não desci. Ela me mandou uma mensagem que eu só li quando acordei novamente às sete da noite do mesmo dia. Ela dizia, vocês sabem, pra eu ser menos inseguro. Disse também que era melhor eu perder a mania de transar e depois me vestir novamente, porque pegava mal. Pensei na hora: Eu preciso recuperar minha memória, sei que não vai acontecer outra vez, etc. O fato é que penso nisso até hoje, ainda mais quando lembro que uma semana depois ela mudou de telefone, cidade e estado civil.
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Pouca bobagem
Eu fiquei sabendo pelo jornal, o que foi um tanto quanto desagradável. Liguei a TV logo que acordei e no jornal do meio-dia vi a notícia.
Diziam os moradores de onde ele vivia que todo dia pela manhã ele acordava cedo e juntava-se a mesa do café da manhã com os outros moradores. Não lembro se eram parentes ou apenas amigos. Daí aconteceu que naquela manhã quando todos se reuniram para o tradicional café da manhã, ele não acordou. A ausência dele na mesa gerou preocupação imediata. Subiram até o quarto e encontraram o corpo sem vida. Já ali no ato começaram a organizar as questões do féretro, sem choro e sem vela.
Morreu com 101 anos, ou mais. Não lembro. Pena que eu não o conheci. Na foto ele parecia ser simpático. Mas já se foi, agora é bobagem.
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
Cinefilia Junk
Comecei frequentando o cinema, ainda bem novo. Mas cinema tudo bem, naquela época isso já não era problema, não para famílias liberais como a minha. Hoje em dia todos frequentam ou já frequentaram essas salas de consumo coletivo, apesar do preço alto. Até que certo dia conheci, por meio de amigos, o material que era fornecido em VHS – idéia de um amigo que tinha o aparelho em casa e não se importava
Ainda são encontradas Vídeo Locadoras por aí em alguns cantos da cidade, mas cuidado, com a chegada do DVD o valor do aluguel se tornou abusivo. E é sobre o prejuízo monetário que eu falarei a seguir, depois de relatar uma fase transitória que pode ser considerada o começo do meu vício, o contato com o Submercado.
Esse Submercado chegou até mim quando experimentei comprar um filme em DVD, e você deve estar imaginando eu em uma loja comprando um produto de qualidade e com preço alto (o que me impediria o vício por razões financeiras), mas não. Foi passando por uma esquina próxima a minha casa que conheci um homem mal vestido que empunhava um estojo repleto de filmes e se identificava apenas como Camelô. Notei no ato que esse rapaz era esperto, tanto por sua agilidade ao buscar pelo material desejado por mim quanto por suas promoções “Dez por seis”. Mergulhei de cabeça nessa, mas não por muito tempo. Os motivos para eu ter abandonado o uso do material do Sr. Camelô foram diversos, por isso vou citar apenas alguns: Os títulos eram limitados, ele demorava para conseguir – quando conseguia – os filmes que sequer entraram em cartaz na cidade ou mais antigos; outro era que ele insistia em me empurrar filmes ruins bolso a dentro; Mas de tantos problemas o que foi crucial para que eu desistisse desse tipo de fornecedor era que, ao chegar em casa, suando, ainda com a roupa usada na faculdade, logo após empurrar o disco para dentro do aparelho, foi tornando-se usual encontrar três problemas que impossibilitavam o consumo. Esses problemas eram: Filme dublado, sem opção de troca do áudio; Filme com áudio original, perfeito, porém sem legenda e o último, contendo o aviso infernal de Disco Inexistente, pois nada havia sido gravado no disco. Foi a partir do problema com o Camelo que me entreguei à uma atividade equivalente ao uso do pirata. Conheci o download e me tornei um usuário digital – talvez procurando uma utilidade para os discos virgens que comprei por engano – ou picaretagem – do amigo Camelô. Esses tempos, em parte, foram bons. Baixei filmes de todos os cantos do mundo, escolhia uma série de títulos e deixava baixando via torrent a noite inteira para que pela manhã, até antes de me alimentar, começasse a usar a obra que desse vontade na hora. Consumi como nunca, consumi por ordem alfabética, por filmografia de diretor, por seguimento ou movimento artístico. Assim, junto com o conhecimento, meu vício aumentava a cada dia. Até eu já me considerava fissurado, ou cinéfilo – termo que meus amigos usavam para me descrever pejorativamente. Aliás, ex-amigos. Troquei meus amigos pelos filmes.
Certo dia, mergulhado na tela
Problemas com essa dependência eu tive muitos e ainda tenho. Devo confessar que não consegui me livrar do vício, mas agora admito que uso apenas coisas licitas, com nota fiscal e certificado de boa procedência, certificação essa dada pelos amigos da crítica que costumam avisar quando o produto não vai cair bem a certos usuários mais exigentes.
Agora é dezembro e nesse apartamento pequeno e úmido, onde me submeti a morar para que meu salário renda mais filmes, e com o estomago encolhido por uma dieta de macarrão instantâneo, me dispus a empurrar hoje pela manhã meu décimo terceiro salário ao caixa da maior livraria da cidade – descontado o aluguel e o macarrão do mês – para a aquisição mais pesada da minha vida.
Vi com os olhos marejados a moça do caixa colocar na sacola da maior livraria da cidade aqueles quatro boxes. Jean-Luc, Federico, Bernardo e François.