domingo, 26 de junho de 2011

Nova Ordem Mundial

Nas férias do ano de 3011, resolvi usar o dinheiro virtual (dados aos sobreviventes do último cataclismo para tentar evitar uma nova extinção do capitalismo pela segunda vez nesse mesmo século) e investi em uma “zona habitacional orbital”, afim de nunca mais depender do Governo Total em caso de um novo grande desastre ou pandemia. Queria fugir dessa instabilidade e o preço do lançamento doméstico estava convidativo. Embora fosse um serviço da base mexicana, em voos domésticos eles sabiam fazer um bom trabalho, mesmo que não tenham ajudado muito nas batalhas estelares contra a Nova URSS – quando os Estados Independentes da América do Norte incluíram o México na Ordem, em troca de uma “pequena ajuda” do exército mariache com soldados para a linha de frente dessa não oficial III Guerra Mundial, que não foi declarada mundial pois se tratava de uma guerra extraterrestre por espaço lunar. A guerra acabou do dia para a noite, quando a EIAN descobriu que era mais fácil construir uma base orbital, que dividisse espaço com os satélites, do que uma base lunar, então a Nova URSS reconheceu a inteligência norte americana e tentou comprar os serviços para construir também sua base orbital, mas a Ordem não vendeu e aos poucos a Nova URSS foi se desmanchando, até que a EIAN se tornou o Estado Total.

Enfim, fizemos a viagem, a família toda. Vimos cometas chocarem-se, explosões de
supernovas, ouvimos o barulho do Sol. Eu não ia com a família para a orbita terrestre há anos – na última vez, nosso filho ainda estava na proveta e a Hari nem sabia dessa surpresa que eu tinha preparado, já que ela sempre reclamou por eu ter feito vasectomia, então eu comprei esse presente pra ela. Logo nos casamos. Nessa viagem levei a Hari para conhecer um aparelho que permitia o contato extradimensional com pessoas que já haviam “partido” – agora essa palavra fazia mais sentido nesse caso, pois tínhamos total certeza de que foram para outro lugar. Com esse aparelho, com base nas leis da física quântica, podíamos fazer contato com essas pessoas que já não estavam mais na mesma dimensão que a nossa. Logo que fizeram essa descoberta, a ciência, a fisica e a tecnoligia pareciam ter chegado no seu ponto mais alto, porém em seguida a questão mudou de “para onde vamos?” para “como chegamos lá?” e logo novos cientistas-filósofos surgiram. Junto com esse aparelho, chegou a banalização do suicídio, pois o ato passou a ser encarado como uma forma de viagem (sem volta) para uma nova dimensão – mesmo que alguns partam para dimensões onde não podemos fazer contato.
Quando o sol iluminava o lado da terra por onde a base estava passando, usávamos uma espécie de óculos de lente vermelho escuro, que nos permitia olhar a terra sempre repleta de furacões por todos os lados que mal podíamos ver os continentes, mas era sempre uma experiência diferente. Gostamos tanto da vida na Base, que continuamos aqui até hoje, ainda estamos nos acostumando a ver a terra de longe, às vezes parece que fomos feitos pra viver somente lá, mas a Ordem nos oferece tudo por aqui, nosso dinheiro rende, diferente do planeta, que de tempo em tempo nos obriga a pedir ajuda pro governo.

A
Hari tem um arquivo que fala sobre dias ensolarados naquele planeta, mas eu duvido que isso um dia tenha existido. Ela acredita também que um dia um homem lutou contra a Ordem IEAN, quando a ordem se chamava apenas EUA e que esse homem foi morto por eles, mas depois disso a Ordem perdeu força por anos, quando começaram os cataclismos. Eu não acredito nesse arquivo que ela tanto lê e costuma dizer que antes de dormir é bom falar o nome dessa pessoa algumas vezes pois, segundo o livro dela, isso ajuda em alguma coisa. Para mim a terra sempre foi como é agora, ninguém lutou contra a Ordem, com exceção da Nova URSS - e a Ordem acabou com eles sem usar armas. Ninguém atacou a IEAN, nem nunca vai atacar.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Zapeando

- Conflito na Líbia já dura zap... Aprovado projeto de lei que zap... Grávidas em Belo Horizonte zap... Estudantes reclamam por uma zap... Um golaço de fora da área. O resultado final foi três à dois. Veja a seguir zzap... Com essa música recebeu o título de Sir. (oh, look at all the lonely people...) zzap... “Vem comigo” zap... Você fica agora com a décima posição zzzap... And our lives are forever changed/We will never be the same/The more you change the less you feel/Believe, believe in me, believe/Believe that life can change/That you're not stuck in vain/We're not the same, we're different tonight/Tonight, so bright. Tonight zzzap… Zzz...

domingo, 29 de maio de 2011

Dias de noites difíceis

Maria chegou em casa cansada, sacola pesada, frutas de fim de feira. Encontrou seu marido bêbado, como jamais havia visto. Soltou a sacola no chão e tentou colocá-lo em baixo da água gelada do cano alto do banheiro imundo. Ele resistiu, ela insistiu, ele pegou um garfo e cravou entre suas coxas. Maria não gritou, não quis acordar a filha mais nova que dormia no colchão ao lado do fogão a lenha. Ela retirou o garfo friamente e colocou suas roupas em uma mochila verde velha e saiu, deixando os filhos e o marido bêbado desacordado no chão do banheiro. Maria nunca mais voltou pra casa.



Paulo tinha 23 anos e com exceção da empregada adolescente, jamais havia penetrado entre outras coxas. Seu pai lhe cobrava mais empenho, mas as mulheres que Paulo conhecia jamais aceitaram um convite para entrar no carro que seu pai o emprestava toda sexta-feira à noite. Então naquele mês de junho ele cansou das tentativas em vão com patricinhas exigentes que só queriam o pó e jamais correspondiam com os atos esperados por ele, pegou a chave e desceu até a garagem.
Embebido em Scotch e coragem, rumou às ruas vermelhas da cidade quente.
Paulo entrou no primeiro prédio de corredor estreito e escadaria vermelha que passou pela frente – o primeiro com estacionamento exclusivo, na verdade. Não queria correr o risco. Entregou a chave e subiu. Não selecionou, apenas pegou por ordem de chegada. A primeira que viu. No quarto de vidraças quebradas com divisórias de isopor, encarou a ferida entre as pernas da puta como se não lhe passasse pela cabeça a possibilidade de ser cancro mole.



Cardoso bebia uísque e pensava na sua esposa. Desconfiava de um possível envolvimento dela com um dos empregados da empreiteira, o peão de obra que cumprimentava sua mulher sorrindo. Chamou o empregado em sua sala e mandou ele tomar no cu. Empurrou uma carta de demissão sobre a mesa. Saiu da sala e foi para o banheiro cheirar a cocaína que encontrou por acaso no porta-luvas do carro que havia emprestado para o filho na semana passada.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Anda difícil viver na cidade

Ainda lembro quando eu olhava pela janela e escorria sangue pelo meu nariz. Diria até que isso foi ontem. A noite tinha um cheiro realmente muito forte. Daí eu saía pra rua e ia beber com alguém. Então alguém chorava. Alguém acendia um baseado e ninguém falava mais nada. A calçada é mais confortável antes dos trinta. Acho que comecei minha vida no segundo tempo. Aos quarenta e cinco já vai estar tudo decidido. Até que aos cinquenta tudo acaba. Ou vou ser substituído, porque já vou estar cansado. Alguns acreditarão em uma próxima temporada. Aplausos e lágrimas da torcida.

Liguei pra Lívia esses dias. Ela riu quando ouviu minha voz. Nunca mais senti o cheiro dela. Amanhã vai fazer frio e eu tenho que tirar cópia da chave. A Lívia te mandou um beijo – falei pra minha mãe. Meu cachorro não come nada há dois dias.

Para aliviar a fome comi um cachorro quente. Duas horas depois já estava com fome novamente, nada como era antes. Essas coisas me remeteram a um passado estranho, alguma lembrança que na verdade não consigo lembrar. Meu time fez cento e trinta e um anos hoje. O pessoal aqui já está acreditando bem mais na próxima temporada.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Pneumotórax

Tenório mata formigas desde os cinco anos. Agora com trinta e três, Tenório se profissionalizou. Ele não tem amigos, ele não tem mulher, Tenório é um homem fraco e com problemas pulmonares. Tenório fuma, sendo assim, presume-se que ele tenha uma constante vida interior. Ele pensa no passado em busca de expectativa para o futuro. Tenório acha a vida inútil. Tenório mora sozinho e dorme na cama onde sua mãe dormiu o último sono.
Esse corpo franzino passeia pelos parques de Porto Alegre em busca de formigueiros, vespeiros e qualquer outro ninho de praga. Ele um dia mirou seu canhão de inseticida para ele mesmo, sem pensar em suicídio, pensava apenas em resumir a queda que é a vida. Tossindo demais, não conseguiu mirar seu rosto. O veneno não alcançou suas mucosas e ele não teve êxito na tentativa.
Tenório herdou da mãe uma coleção de discos de Mercedes Sosa e ele canta todo dia "Gracias a La Vida" com ironia, toma banho com sabão e vai dormir. Sua casa fede a veneno.
No apartamento ao lado mora uma moça chamada Verônica. Ele sempre ouve Verônica reclamar das baratas quando fala ao telefone com uma amiga, sempre a mesma amiga. Um dia ele oferece seus serviços a ela, promete exterminar qualquer inseto daquele apartamento. Ela aceitaria e ele faria sexo pela primeira vez. Mas ela não aceita, pois tem medo dos olhos estrábicos de Tenório e de sua cicatriz por conta de uma traqueostomia. Ele nota a distância que ela toma para responder e mentir sobre a existência das baratas. Ela nega o fato de existirem esses insetos no seu apartamento e, assustada com a presença inesperada do estranho vizinho, fecha a porta.
Tenório ouve Verônica cantar no chuveiro todos os dias. O som sai da janela do banheiro dela e entra pela janela do quarto dele.
Um dia o canto alto de Verônica deu lugar a um choro baixo, típico de um ataque de pânico. Tenório pode ouvir, pois escutava com atenção a cantoria da vizinha enquanto tentava esquecer sua tentativa frustrada de prestar serviço a ela, então logo imaginou ser uma invasão daqueles insetos que Verônica tanto reclamava ao telefone.
Tenório viu ali a chance de mostrar sua capacidade de executar um bom serviço.
Ele teve uma ideia e não hesitou por em prática. Tenório dependurou-se no parapeito da janela do seu quarto e colocou a mangueira do canhão de inseticida – assim ele chamava o artefato – na janela do banheiro da moça que continuava a chorar e disparou um litro de inseticida para dentro.
Tenório suspirou ao ver o trabalho completo e bem feito e ouvir o silêncio pleno tomar conta do banheiro vizinho, com exceção de Oh! You Pretty Things, que continuou tocando no rádio da vizinha. Tenório acabava com mais uma praga na sua vida.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Éramos 3

Estive pensando sobre o ano de 2006 e me pareceu até agora a época mais importante da minha vida, ou da minha adolescência, o ano das mudanças, pode se dizer - Caetano lançou o Cê e, como disseram os críticos, se reinventou.
Quinze anos e passando pela segunda vez pelo primeiro ano do ensino médio, já com certa experiencia sobre as matérias desse nível, comecei a matar aulas e criar amigos, que permanecem amigos até hoje e com certa frequencia nos encontramos casualmente em algum ônibus ou não por acaso em alguns bares. Foi pensando nesses colegas que se tornaram amigos que lembrei dos amigos de infância que se tornaram apenas colegas. Éramos três. Dos oito aos quatorze, fomos três grandes amigos, depois cada um seguiu seu rumo sem mudar de endereço. Ainda nos encontramos na rua, na nossa rua, na rua onde jogávamos futebol - eu com pouquíssima intimidade com a redonda - porém o papo nunca dura o bastante para marcarmos tomar uma cerveja, os três, como em antes de 2006 - nessa época, sem a parte da cerveja. Por isso pensei, porque não marcar logo esse encontro com o passado, saber dos planos futuros e lembrar de algum vidro quebrado, alguma vizinha gostosa que hoje deve ser mãe solteira de três filhos, pois assim as coisas são. Seria impossível. Faz pouco mais de uma década que facilmente éramos vistos juntos com uma bola embaixo do braço ou bolitas no bolso, discutindo sobre quem fez o golaço do domingo naquela praça onde hoje as goleiras já foram retiradas, mas seria impossível pois temos uma coisa que hoje gostaríamos talvez de não ter. Compromisso. Dos três, o mais novo já encontra-se casado e é pai, nada planejado, mas ele administra tudo muito bem com um certo jeito brasileiro. O outro trabalha na cozinha de um hotel de uma rede internacional, além de fazer parte de uma espécie de coletivo que une cozinha e vídeos de skate - não faço ideia de como. Enquanto, eu, penso em escrever um livro e reunir os velhos amigos, não parece muito promissório, ou talvez o mundo ainda esteja pronto para tanto.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Universo Inconsciente

Um ser totalmente lúcido e transcendental apóia-se no parapeito do edifício mais alto da maior cidade do universo que contem mais carbono do que oxigênio na única atmosfera que contem o elemento crucial a sobrevivência na galáxia inteira pelo fato de ser, em tese, o único lugar onde há seres vivos, céticos, egoístas e certos de sua existência impar até que provem o contrário (para quem?). O nome do ser é Ângelo e somente ele observa a vida de fora e do alto sem precisar ser divino ou contemplado, apenas observa ali a coexistência do caos entre e dentro de cada ser humano ou objeto animado, seja por força física ou natural. Tudo que se move reflete e absorve o caos de e para o universo em uma dimensão astronômica e apenas limitada pela unidade de medida humana, mas infinita na sua real proporção.

Ângelo reflete sobre a palavra liberdade, morte e existência. Ele pensa sobre o mundo como um todo e para ele o ser humano é uma nano partícula e mesmo assim absorve a culpa de um mundo inteiro sobre seus ombros por vontade própria, mas não por um ato heróico, mas sim, por ato de covardia. O ser humano que Ângelo observa é o homem que tem para si a missão de entender o universo tentando colocá-lo sob sua própria nomenclatura. Ângelo repudia a atitude de falta de “percepção de todo” da humanidade e retorna de onde veio. Ângelo apaga seu cigarro e recolhe-se a sua insignificância. Ele retorna ao universo das eternas possibilidades. Ângelo retira seus olhos do microscópio ao mesmo tempo em que o mesmo Ângelo afasta seus olhos da lente do telescópio, embora esse último sem ter para si alguma resposta qualquer.